Definição


Na tentativa de apresentar uma definição para a Estatística e considerando a sua própria complexidade, é interessante lembrar o artigo escrito por Basílio de Bragança Pereira, intitulado "ESTATÍSTICA: A TECNOLOGIA DA CIÊNCIA, publicado no Boletim da Associação Brasileira de Estatística, Ano XIII, No. 37 - Segundo Quadrimestre de 1997. O título do trabalho, em destaque, já é um referencial do conceito e da importância que a Estatística tem na pesquisa científica. Para evitar a fragmentação excessiva das idéias e procurando preservar a clareza dos argumentos, alguns trechos do artigo serão reproduzidos. Assim, Pereira (1997) escreve:

"A pesquisa científica é um processo iterativo de acumulação de conhecimento e envolve a formulação de hipóteses, modelos e teorias, a observação de fenômenos e a verificação e rejeição de hipóteses sobre os mesmos. A Estatística procura tornar esse processo o mais eficiente possível, através de suas técnicas de coleta de dados (amostragem e planejamento de experimentos); apresentação de dados (análise exploratória e descrição: gráficos e tabelas); modelagem (probabilidade e processos estocásticos); análise indutiva (inferência: testes e estimação) e verificação (ajustamento, previsão e controle)."

O artigo apresenta as várias etapas da pesquisa científica, ressaltando que a Estatística está presente em todo o processo, concluindo-se que a Estatística é a Tecnologia da Ciência. Ainda com base no referido artigo, convém esclarecer alguns conceitos equivocados, freqüentemente encontrados sobre a Estatística. Como pondera o autor:

"Quando se fala em Estatística, o público em geral associa à idéia de um trabalho de coletar e armazenar números e dados ou, quando muito, ao cálculo de percentagens e índices a partir desses dados. Entretanto a Estatística ou os métodos estatísticos têm um papel muito mais importante na ciência e tecnologia."

Usando os argumentos do autor, a relação entre ciência e Estatística é percebida através da concepção atual de ciência, vista como um processo contínuo e iterativo de aprendizado, através de experimentação e dos dados observados e, logicamente, mediante a avaliação quantitativa dos fenômenos em estudo. Segundo o autor, "uma hipótese inicial leva, por um processo de dedução, a certas conseqüências que são comparadas com os dados." Quando não há concordância entre as conseqüências e os dados, um processo de indução leva a modificação das hipóteses. Inicia-se, assim, um segundo ciclo na iteração, no qual as conseqüências das novas hipóteses são novamente comparadas com os dados (antigos ou novamente coletados), levando a novas modificações e, portanto, a um ganho de conhecimento. Como argumenta Pereira (1997), "Este conhecimento assim obtido, tem interesse intrínseco para satisfazer nossa curiosidade ou/e para objetivos de decisão. Uma parte de nosso conhecimento é meramente uma descrição do que observamos; a parte mais importante é a generalização ou indução que consiste em fazer inferências de experiências passadas para predizer as futuras."

Neste ponto é importante resgatar o princípio de unidade da ciência de Karl Pearson, também mencionado por Pereira (1997), que especifica: "A unidade da ciência é a unidade dos métodos empregados em analisar e aprender através da experiência e dos dados." O autor também menciona no artigo a interpretação dada por Harold Jeffreys (1891-1989), que essencialmente postula que a validação das hipóteses deve ser realizada mediante um critério padrão e uniforme, independentemente da área de conhecimento. Em outras palavras, diferentes leis podem ser válidas em diferentes áreas, mas é fundamental usar os mesmos critérios para testá-las, sob pena de não termos garantia de que as decisões são aquelas garantidas pelos dados e não meramente o resultado de análise inadequada ou, então, de acreditar no que queremos acreditar.

Novamente citando um trecho do artigo, Pereira (1997) conclui que "... o princípio da unidade da ciência impõe a utilização dos mesmos padrões de trabalho e de um conjunto unificado de métodos para uso. Este conjunto unificado de métodos constitui o que se entende por Estatística e, neste sentido, podemos, sem dúvida, definí-la como a Tecnologia da Ciência."

Os aspectos abordados até aqui parecem suficientes para caracterizar uma definição adequada de Estatística, mesmo que não seja unânime. Aliás, para uma ciência que lida justamente com incerteza, unanimidade parece ser um conceito contraditório. É importante salientar, contudo, que o artigo também traz uma discussão sobre o que é ciência, apresentando os métodos estatísticos como a ferramenta da pesquisa científica. Como sugestão, deixamos para aos interessados uma leitura e discussão mais aprofundada do referido artigo.

Neste momento é relevante arriscar uma interpretação dos conceitos apresentados acima, através de uma definição não tanto formal para a Estatística. Assim, a ciência que permite organizar a geração de dados e sua transformação em informação é precisamente a Estatística, que pode ser definida como o estudo da variabilidade e a medição da conseqüente incerteza, para extrair eficientemente a informação necessária em estudos científicos e tecnológicos das mais diversas áreas. Portanto, fica plenamente evidenciado que a Estatística é parte fundamental do método científico.