REMINISCÊNCIAS DE UM EX-DIRETOR - UM DEPOIMENTO DE MEMÓRIA
Antônio Rodrigues

Cheguei em Porto Alegre em abril de 1944 para lecionar, no terceiro ano, a disciplina de Geometria Superior e também, ajudando o Prof. Tietböhl, que adoecera no ano anterior, dar Análise Matemática no primeiro ano do curso de bacharelado da Faculdade de Filosofia.

Até aquela época o ensino na Matemática sofrera a influência positivista da Escola Militar, sobretudo nas disciplinas da Escola de Engenharia de Porto Alegre. A criação, em 1942, do curso de licenciatura e bacharelado em Matemática, na Faculdade de Filosofia da UFRGS, iria, daí em diante, modificar este programa, pelas influências que tiveram no ensino do País a escola italiana e posteriormente a francesa e a americana.

Na escola de Engenharia já eram adotados textos mais recentes como o curso de "Cálculo do Granville" e a "Analítica do Smith-Gale"; contudo ainda se fazia sentir a orientação positivista de Augusto Conte nas obras de "Geometria Algébrica (Geometria Analítica)" e "Cálculo Infinitesimal" do Marechal Trompowsky, antigo professor do Colégio Militar. Uma das características destas obras, no Cálculo, era desconhecer a noção de limite e seu desenvolvimento se fazia com base na noção intuitiva de infinitésimo, segundo a concepção de mônadas de Leibnitz. O próprio Prof. Tietböhl dá o testemunho de que, como aluno da Escola de Engenharia, nunca utilizou limites em seus estudos. Aliás, diga-se de passagem, quem modernizou o ensino do Cálculo Infinitesimal, em Porto Alegre, foi o Prof. Tietböhl, seja introduzindo toda a técnica moderna de limites, seja empregando novos conceitos, como o de corte de Dedekind, valendo-se das famosas Notas de Análise Matemática de Omar Catunda que refletiam o curso dado por Luigi Fantappié em São Paulo.

Por falar em corte de Dedekind, lembro-me bem de que tempos atrás o Prof. Fantappé fizera, na Sociedade de Engenharia, uma palestra sobre a Matemática de sua época, onde, certamente, expôs as noções básicas da teoria dos números reais, pois, a pergunta que mais me faziam era justamente o que vinha a ser esse tal de corte de Dedekind, de que tanto falara Fantappié e de uma misteriosa equação do telegrafista, por ele citada, nessa palestra, e que todos desconheciam, inclusive eu, de que os telegrafistas eram donos de uma preciosidade matemática. Bem, não foi difícil explicar, de modo intuitivo, o corte de Dedekind; quanto à equação do telegrafista encontrei-a no "Cours d'Análise" do Goursat e a exibi, aos interessados, com ares esotéricos. Outro acontecimento que marcou a minha memória, naquele ano (1944) foi a palestra do Prof. Tietböhl, na Sociedade de Engenharia, sobre o assunto (coordenadas homogêneas) de Geometria Projetiva, no momento em que afirma que é nula a distância entre dois pontos quaisquer da reta isótropa (y = ± ix), pois, justamente, neste instante, talvez devido ao calor muito forte da noite, o oficial da Brigada Militar, representando o Governador do Estado, tem um desmaio, retirando-se, em seguida da sala, acontecimento que provocou comentários dos presentes sobre a inconveniência das retas isótropas, na estratégia militar.

Para surpresa minha, o programa de Geometria Superior, cópia do que era adotado na Faculdade Nacional de Filosofia, e que fora elaborado por Acchile Bassi, professor italiano, versava sobre temas do que na época se chamava Topologia Combinatória (simplexos, complexos, grupos de Betti, homologias etc), algo no estilo do livro "Lições de Topologia" de Seifert-Threfall, assunto de que tinha vagas noções, mencionadas por meus professores italianos de São Paulo. Mais tarde, vim a saber, pelo próprio Prof. Bassi, que a Topologia Geral e Combinatória eram praticamente desconhecidas na Itália, não havendo nenhum estímulo, por parte das autoridades italianas, para que as mesmas fossem estudadas, já que a Geometria Algébrica era considerada patrimônio nacional. Restou-me, por isto, a alternativa de basear meu Curso de Geometria Superior no livro "Teoria degli hiperspasi" de Bertini, o qual dava um tratamento essencialmente projetivo, segundo o método italiano, a assuntos que são do âmbito da teoria dos espaços vetoriais, sem contudo servir-se da linguagem vetorial, como vetores e transformações lineares. Somente cinco anos depois, quando apareceu em Porto Alegre o livro "Survey of Modern Algebra" de Birkhoff-Maclane, foi que vim a tomar conhecimento dos espaços vetoriais e de outras noções algébricas, como anéis e ideais, cálculo matricial, etc. Revistas e livros estrangeiros só começaram a aparecer em Porto Alegre após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, quando adquiri a "Topologie (1º volume)" de Alexandrov e Hopf e que não pude ler por não saber alemão.

Muito mais tarde comprei a "Algebra" de Van der Waerden e a "Mengenlehre" de Hausdorff, ambas, evidentemente em alemão. Também recebi umas notas de um curso de Geometria Algébrica, dado em São Paulo, por O. Zariski, com as quais estudei os anéis e os ideais. Por essa época, não me lembro bem das datas, surgiu uma série de cadernos de Análise Geral de autores portugueses que me pareciam escritos em um linguagem difícil e estranha, principalmente o primeiro deles ("Espaços de Sierpinski") que, além de um tratamento axiomático do assunto, introduzia um simbolismo que eu não entendia, como 2¹ para representar a classe de subconjuntos de um dado conjunto I, a relação O = 0 e outras que me pareciam exóticas.

As primeiras dificuldades de leitura das obras em alemão foram vencidas com o auxílio do Prof. Leopoldo Tietböhl, pai do Ary Tietböhl, que se prontificou prazeirosamente, sem medir esforços, a me traduzir a Topologie do Alexandrov, em tiras de papel que conservei carinhosamente por muitos anos comigo e que cobriam mais da metade da obra, sendo interrompida a tradução por motivo de doença séria do Professor Leopoldo.

Não foi fácil a leitura da tradução. Por desconhecer o significado dos termos técnicos deixou-me, a escolher, diferentes versões para cada um deles e que, na maioria das vezes, não incluiam a mais adequada a cada caso, como por exemplo, die Menge podia ser quantidade, pluralidade ou numerosidade e die abgeschlossene Hülle traduzido por envoltório ou invólucro fechado, sem mencionar que, no primeiro caso se tratava de conjunto e no segundo tínhamos o fecho do conjunto.

Ocorreu que no verão de 1947 ou 1948, apareceu, de repente, em gozo de férias em Porto Alegre, o professor português, natural de Angola, Aniceto Monteiro que, na ocasião, lecionava na Faculdade Nacional de Filosofia e, além de autor de um dos Cadernos de Análise Geral, escrevera uma Aritmética Racional muito original, em cuja capa, bem no centro, se lê 1 + 1 = 10, fato que me permitiu adquiri-la pela metade do preço porque o livreiro não se conformava com tal asneira e o livro lhe parecia estar errado. Quem soube dessa permanência foi o Cabral (Prof. Antonio Estevam Pinheiro Cabral), meu aluno de bacharelado naqueles tempos, que propôs que convidássemos o Prof. Monteiro a fazer umas palestras sobre Topologia, tendo eu sugerido que o assunto fosse o desenvolvimento histórico e as idéias básicas desta ciência, em cinco exposições.

Barramos, porém, com uma dificuldade inicial para formalizar um convite oficial quando o diretor da Faculdade de Filosofia, que de início havia aprovado a idéia, soube por mim que o Prof. Monteiro saira de Portugal por ser da oposição ao governo Salazar e além disso se achava hospedado em um sítio do Scliar em Viamão, fatos que deram ao assunto uma conotação de esquerda. Restou-nos contornar o problema através de uma audiência com o Senhor Magnífico Reitor, Prof. Armando Câmara, líder católico ferrenho, que exigiu sabatinar o Prof. Monteiro em assuntos políticos e econômicos. Lembro-me bem de uma pergunta feita sobre o que achava ele de Salazar e da resposta seca e imediata de que Salazar, como professor de Economia, na Universidade de Coimbra, tinha sido um fracasso. Afinal, saímos com a permissão do Reitor para as cinco conferências de Topologia, sem nenhum custo para a Universidade, a serem feitas na sala da Congregação da Faculdade de Direito e que estava em reformas. O Cabral, na despedida ao Reitor, pediu que o Prof. Monteiro assinasse o Livro de Ouro dos visitantes, pedido que me parece não ter sido negado, o que pode ser comprovado se o livro ainda existisse.

E assim, debaixo de marteladas, porque o carpinteiro se negou a interromper o serviço de reparar os defeitos das janelas, realizaram-se numa semana muito quente de janeiro, essas palestras que me escancararam as portas desse mundo maravilhoso que é a Topologia e a Álgebra Moderna. Encerro este episódio com a observção do Prof. Monteiro sobre o reparo que fiz a propósito da pequena freqüência às aulas que de razoável (umas vinte pessoas) no início havia caído para duas ou três pessoas no final: em Paris, durante meses, fui aluno único de Frechet (autor da tese "Os Espaços Abstratos"). O Prof. Monteiro escreveu, ainda em Viamão, umas notas sobre Filtros e Ideais que foram publicadas pelo IMPA.

Em novembro de 1952 houve, em Porto Alegre, a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência durante a qual foram programadas palestras e conferências, realizadas na Faculdade de Filosofia e na Sociedade de Engenharia, pelo grupo de matemáticos presentes, dentre os quais figuravam Leopoldo Nachbin, Maurício Peixoto, Candido Dias da Silva, Chaim Hoening, Charles Ehresmann e muitos outros.

Fiquei muito impressionado com os assuntos tratados, em particular com os temas sobre espaços vetoriais topológicos e variedades diferenciáveis (palestra de Ehresmann). Compreendi que estivera, nos últimos anos, marcando passo. Precisava, portanto, fazer um estágio no recém criado IMPA, no Rio de Janeiro, sob a orientação de Leopoldo Nachbin. Por isto, passei o ano de 1953, envolvido em seminários de Álgebra Abstrata ("Lectures in Abstract Algebra", de Jacobson), Espaços Métricos ("Point Set Theory" de Newmann), Topologia Geral (Mac-Lane, Bourbaki) e Álgebra Linear ("Vector Spaces" de Halmos e "Álgebra Linear" de Bourbaki), além de ter assistido a um curso de grupos de Lie, dado pelo Nachbin, na Faculdade Nacional de Filosofia. Este aprendizado utilizei, a partir do ano seguinte, nas matérias que tive de lecionar em Porto Alegre, reformulando e atualizando o ensino delas.

Em 1958, no governo do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira é criada a COPUSI (Comissão Supervisora do Plano dos Institutos) que, no ano seguinte propiciaria condições muito favoráveis para a instalação de dois institutos de pesquisas: o Instituto de Matemática e o Instituto de Física, com substanciosa ajuda financeira, mediante um convênio com a Universidade.

A finalidade da COSUPI, nas universidades brasileiras, além das pesquisas, era principalmente a instituição do regime de tempo integral entre os professores, objetivo que não foi plenamente alcançado no Instituto de Matemática da UFRGS, por motivos, sobretudo burocráticos. É que a maioria dos professores acumulavam cargos e não desejavam perder um deles em troca de um regime que parecia incerto e temporário. Por isto, o Instituto de Matemática teve que contratar novos elementos e oferecer o regime de tempo integral aos poucos que não acumulavam.

Um erro da COSUPI, a meu ver lamentável, foi o de não ter ela participado do planejamento do uso e destino de suas verbas, nem sequer ter-se interessado pelas mesmas, o que permitiu à Reitoria enquadrá-las dentro das normas administrativas federais. Assim foi que seu gasto dependia do enquadramento das despesas dentro de certas rubricas, como, por exemplo material de consumo. Isto trouxe muitas dificuldades, sobretudo na contratação de professores estrangeiros. Cheguei mesmo a pensar, quando era diretor do Instituto de Matemática, ser mais fácil adquirir uma máquina de lavar roupa ou um piano do que convidar alguém para dar uma conferência; no caso da compra da máquina, bastava haver saldo na rubrica correspondente e no caso da conferência havia todo o ritual de pedidos e justificativas do bom emprego do dinheiro. Certa conferência de lógica do Prof. Newton Carneiro, do Paraná, nunca saiu, apesar da promessa da Varig em fornecer a passagem e da garantia do Reitor em custear as despesas do hotel, dada aos alunos da Engenharia interessados no assunto - nunca fiquei sabendo o que houve, talvez desistência do professor.

Se a COSUPI errou por um lado, acertou em cheio em outro porque suas verbas, além das muitas publicações feitas pelo Instituto, de alguns cursos dados por professores de fora, permitiram que uma plêiade de jovens promissores efetuassem, no futuro, cursos de mestrado e doutorado em outras instituições do País e do exterior, como foi o caso do Sílvio Machado, já falecido, do João Bosco Prolla, do Roberto Baldino, do Pedro Nowosad e sua esposa Noemi, e muitos outros. Também foram trazidos professores de fora que deram cursos e conferências: o Prof. Elon Lages Lima, do IMPA, deu um curso sobre Variedades Diferenciáveis, o Prof. Ehresmann fez uma conferência de Geometria Diferencial, Mitio Nagumo, da Universidade de Osaka (Japão) desenvolveu um curso de Análise Funcional do que resultou a publicação, pelo Instituto, da obra "Introduction to the Theory of Banach Space", em 1961; houve um curso, dado por um engenheiro chinês, cujo nome não me lembro, sobre Teoria da Elasticidade, isso para não falar das tentativas feitas para trazer, sem sucesso, outros professores.

O regimento interno do Instituto de Matemática estabelecia que os assuntos de natureza didático-científica eram atribuições do CTC (Conselho Técnico Científico), órgão constituído pelo diretor do Instituto de Matemática e dos chefes das três seções (Ensino, Matemática Pura e Matemática Aplicada) em que o Instituto fora dividido. Na prática, porém, cada uma delas em suas atividades, agia de modo autônomo, conforme os desejos de cada chefe, sem consulta aos outros, fato que se refletiu profundamente nas decisões do CTC, pois, sempre prevalecia a proposta de cada chefe, na base do resultado de 3 x 0 ou 2 x 1, um vez que na maioria dos casos o diretor se eximia de entrar no mérito dos assuntos e sempre havia concordância de dois membros, pelo menos, pela aprovação do que estava em pauta. Assim foi que se aprovou a compra do autocorrelator, desejada pela seção de Matemática Aplicada, sem uma discussão aprofundada da questão pelos vários professores do Instituto, creio que nem sequer foi ouvido o Conselho Deliberativo, um órgão de resolução de isntância superior.

Esse autocorrelator, um engenhoca eletrônica, fazia, pelo que se dizia uma série de operações matemáticas úteis nas aplicações, sobretudo na integração de certos tipos de equações diferenciais. E como disse acima, havendo verba suficiente na correspondente rubrica de compra, o Reitor, com muito entusiasmo, autorizou sua aquisição e fabricação na Suíça, tendo sido designado o Prof. Nowosad para ir estagiar no lacal da manufatura a fim de aprender o manejo dessa máquina. Por essa época, ou pouco mais tarde, o Prof. Willy G. Engel obteve permissão para estudar cinética química, em seus aspectos matemáticos, na Alemanha Ocidental, como pesquisador da área de Matemática Aplicada, durante um ano.

Quando me tornei diretor do Instituto de Matemática, em outubro de 1960, entrei em contato com o Prof. Nowosad para ter notícias de seu estágio na firma construtora do autocorrelator quando vim a saber que a firma lhe negara a permissão. Aconselhei-o então que aproveitasse o tempo fazendo algum curso avançado de Matemática Aplicada e procurasse, ao mesmo tempo, descobrir em que lugar havia um autocorrelator funcionando, a fim de colher todas as informações úteis sobre este aparelho. E foi assim que vim a saber, estarrecido, que apenas a França, a Rússia, através de seus Ministérios de Aeronáutica e Guerra, respectivamente, e o Brasil, por seu Instituto de Matemática de Porto Alegre, haviam adquirido os três únicos autocorrelatores fabricados. A pedido meu, Nowosad foi a Paris localizar o autocorrelator francês; dias depois veio a resposta: o aparelho não estava em uso, o encarregado dele tentou ligá-lo, houve uma pane ou um curto-circuito que o inutilizou. E foi assim, também, que vim a estabelecer correspondência com o Stiefel, matemático suíço, topólogo, que dirigia seminários de Matemática Aplicada em Zurich (aos quais Nowosad assistia) com o objetivo de trazê-lo a Porto Alegre, por seis meses, pelo menos, para lecionar matéria de sua especialidade.

Quando o autocorrelator chegou a Porto Alegre, depois de vistoriado e posto em funcionamento por uma comissão, sob a supervisão do Prof. Genaro Celiberto, procurou-se afetuar a integração de um gráfico de senóide, num intervalo de amplitude 2Π, obtendo-se um resultado não muito próximo de 2. Foi explicado que esta forte imprecisão devia-se a duas razões: a de que o desenho da senóide era grosso demais para um resultado satisfatório, a outra, o ambiente estava muito quente e fazia falta um aparelho de ar-condicionado.

Compreendi, talvez erradamente, que as integrações deviam respeito a gráficos de fenômenos não descritos por leis matemáticas usuais, gráficos bastante irregulares e não-contínuos, como deveria ocorrer com muitos fatos estatíscos. Por este motivo, depois de um contato com vários órgãos da Universidade para saber qual deles poderia ficar com o autocorrelator, este aparelho foi doado ao Departamento de Cálculo Numérico da Escola de Engenharia, cujo chefe, Prof. Silva Neto, concordou em utilizá-lo em atividades didáticas.

Já a vinda do Prof. Stiefel, que fora aprovada pela Reitoria, depois de muito esforço meu, e depois de eu vencer uma intriga em torno de uma frase que fiz sobre a ausência da Universidade de matemáticos de valor (em nível internacional) que me exigiu uma declaração escrita de que não pretendi desmerecer ninguém, acabou dando em nada porque a suspendi quando me convenci de que havia indiferença pela escolha de um tema que fosse de interesse de todos. Tive o receio de que se repetisse o que ocorrera com o aproveitamento de Mitio Nagumo e do engenheiro chinês. Os curso destes professores tiveram freqüência inicial razoável, mas devido à comunicação difícil numa espécie de inglês básico, intercalada por pausas demoradas, acabaram por se reduzir, cada um deles, a um único aluno, respectivamente os professores Cossi e Pedro Nowosad, que permaneceram até o fim, a meu pedido. Ainda bem que Mitio Magumo concordara em escrever notas de seu curso de Análise Funcional que redundaram na publicação da "Introdução aos Espaços de Banach" e em auxiliar o Prof. Cossi na redação de dois trabalhos de pesquisas, publicados mais tarde. Achei muito estranho ver o engenheiro chinês mimeografar suas notas redigidas da teoria da elasticidade num aparelho muito antiquado, sujando as mãos de tinta - coisa de chinês. Mais tarde me disseram que eram notas boas que o Instituto devia publicar. Não foi possível porque ele havia viajado para os Estados Unidos e nunca respondeu à carta que lhe enviei pedindo autorização.

A contratação de professores especializados, sobretudo estrangeiros, uma questão central, era muito difícil porque os que mostraram algum interesse queriam fazê-lo a prazo curto, no máximo um mês. É que, na época, a oferta de bons empregos, pagos em dólares, sobretudo nos Estados Unidos, era muito maior que a procura. Mesmo assim, entrou-se em contato, com professores portugueses que estavam em Pernambuco, como o Prof. Rui Gomes, o Prof. Manuel Zaluar, com certo professor de Cálculo das Probabilidades de nome Castro que trabalhava no Laboratório Técnico de Lisboa, os quais por razões diversas, rejeitaram os convites feitos. Chegou-se mesmo a sondar Eilenberg e Richard Bellmann dos Estados Unidos, além de outros.

Ao tornar-me diretor do Instituto de Matemática tentei unificar, de modo não muito democrático, as atividades científicas e didáticas das três seções do Instituto, contrariando alguns professores e gerando conflitos sérios em alguns casos. A seção de Matemática Aplicada, chefiada pelo Prof. Cayoby de Oliveira, já falecido, permitia que seus professores estudassem isolada e diversificadamente assuntos de cunho prático ou técnico de interesse da comunidade, em diversos campos, como os de engenharia, do comércio, da indústria, da agronomia, etc, com a finalidade de descobrir a solução matemática de problemas em aberto nestes ramos. Isto, a meu ver parecia uma utopia, e por esta razão determinei que os professores do Instituto de Matemática se agrupassem em torno de um assunto de interesse comum e passassem a estudá-lo na forma de seminário. Surgiu assim um seminário sobre Equações a Derivadas Parciais, baseado numa obra do mesmo nome do conhecido autor russo Petrowski, mas que não durou muito, como atividade de grupo, porque seus freqüentadores, foram pouco a pouco se afastando, alegando motivos diversos, reduzindo-se os expositores a Luiz Motta e Oscar Bayard Miranda, já falecidos, que alternadamente, em cada semana, procuraram chegar ao fim da obra. Por sinal, o Bayard, na época major do Exército, nem sequer pertencia aos quadros da Universidade. Extraordinário o major Bayard, meu saudoso amigo, enfrentou sozinho todo o "Fundamental Concepts of Algebra" de Chevalley, que me expôs, durante muito tempo.

Outros projetos da seção de Matemática Aplicada foram por mim barrados, como o que pretendia realizar, em Porto Alegre, o primeiro colóquio de Matemática Aplicada, com o apoio de algumas faculdades de economia e agronomia, bem como a contratação de professores da área de logística e de pesquisa operacional. Minha negação a esses projetos desgostou tanto o Prof. Cayoby de Oliveira que ele decidiu afastar-se amigavelmente do Instituto, em caráter irrevogável, apesar dos apelos que fiz para que permanecesse, pelo menos, como professor.

Por outro lado, a seção de Ensino cujo chefe era o Prof. Ernesto B. Cossi, se propôs a dar condições de aperfeiçoamento matemático aos alunos da Universidade, sobretudo aos da Escola de Engenharia, mediante auxílio financeiro (bolsas) para assistência a cursos de Cálculo e de Análise, com empréstimo de livros. Desenvolveu, por alguns anos, um bom curso de Análise Matemática, baseado numa obra do Apostol, da qual o Instituto adquiriu cerca de trinta volumes que foi bastante proveitoso porque muitos alunos tomaram gosto pela Matemática, tornando-se alguns deles matemáticos, como é o caso do engenheiro Roberto Baldino que doutorou-se em Matemática.

A seção de Matemática Pura, que eu dirigia, limitou-se a fazer seminários de Topologia Geral (Mac-Lane), Espaços Métricos (segundo umas notas de Elon L. Lima), Álgebra Linear (Halmos - Finite Dimensional Vector Spaces) e Álgebra Moderna (Modern Algebra and Matrix Theory de Schreier Sperner), com a finalidade de preparar os alunos a curso de mestrado.

Nesta altura compreendi que, além das atividades usuais de direção, me competia fazer três coisas fundamentais: a) Continuar a série de publicações do Instituto. Já haviam sido editados, até 1960, cerca de doze trabalhos de diversos professores, a maioria do Instituto. Em meu tempo vieram a lume os livros de Antonio Kumpera - "Módulos do Tipo Finito sobre um Anel Principal". (1961), a já mencionada obra de Mitio Nagumo - "Introduction to the Theory of Banach Spaces" (1961), um curso meu de Geometria Analítica, 1º volume (1963) e possivelmente outro de Geometria Diferencial, baseado nas notas do Primeiro Colóquio Brasileiro de Poços de Caldas; não tenho certeza se a "Introdução às Variedades Diferenciáveis" de Elton L. Lima é anterior a este período. b) Ampliar o plano de envio de professores e alunos para aperfeiçoamento e mestrado em outras instituições de ensino e pesquisa, com o propósito de, a longo prazo, formar, no retorno deles, uma boa equipe de alto nível, e finalmente: c) Ampliar de modo intensivo e urgente a Biblioteca do Instituto, pela aquisição de livros e revistas estrangeiras, mediante o processo de consulta de preços já que o chamado de concorrência pública não funcionou, por desinteresse das grandes firmas de livreiros.

Era costume dar a cada autor, a título de direito autoral, dez por cento do número de exemplares publicados e também fazer doações a pessoas interessadas, a bibliotecas e instituições, sem nenhuma discriminação. Um fato inesperado, uma devolução de alguns livros doados, que se disse terem sido encontrados enlameados na sarjeta da rua, e que causou um certo mal estar, levou-me a baixar uma portaria que limitava as doações e especificava em que casos as mesmas podiam ser feitas, além de estabelecer normas de venda. Pois, uma medida banal, como esta, me trouxe alguns aborrecimentos que de alguma forma contornei. Ocorreu, por exemplo, que, alguns dias depois o Prof. Elon L. Lima me solicitou cem exemplares de seu curso de Variedades Diferenciáveis, a serem distribuídos gratuitamente entre seus alunos. Propus, para acabar com o desentendimento, e cumprir a portaria, que o IMPA me pedisse a doação de cinqüenta livros e comprasse os demais - a doação, apenas, encerrou o assunto.

Quanto à esperança de retorno ao Instituto dos que haviam saído para especialização em outros lugares, o futuro mostrou que as coisas iriam se passar de modo diferente. Logo no início, depois de um estágio de um ano no IMPA, Sílvio Machado e João Prolla, ao se destinarem aos Estados Unidos para fazer o mestrado, pediram demissão de seus cargos no Instituto, alegando que não teriam, no retorno, por parte do Instituto, condições favoráveis e salários condignos. Apesar dos esforços que fiz para desfazer as impressões e de garantias de melhor emprego, não mudaram de idéia, de modo que acabamos por perder dois bons elementos. Alguns anos mais tarde, esta alegação, em condições diferentes, foi comprovada, no caso do Prof. Pedro Nowosad que, tendo feito aperfeiçoamento na Suiça, mestrado no IMPA e doutorado, com distinção, nos Estados Unidos, foi forçado a sair do Instituto, porque a burocracia da Universidade não lhe proporcionou uma boa situação salarial nem melhorou sua situação funcional, mantendo-o como auxiliar de ensino e pesquisas. Acabou, como todos sabem, transferindo-se para o IMPA. Caso análogo se passou posteriormente com o Prof. Dalcídio Claudio, que fez doutorado na Alemanha, e teve de desvincular-se do Instituto para ir trabalhar, em melhores condições, no Centro de Computação da Universidade. Acho, no entanto, que esse plano de bolsas de aperfeiçoamento do pessoal do Instituto e de formados da Universidade valeu a pena porque veio a beneficiar os demais institutos, tornando-se útil ao País.

Para a ampliação da Bibiloteca do Instituto de Matemática vali-me dos préstimos do Prof. Sílvio Machado, que estagiava no IMPA, forçando-o a copiar o fichário do acervo bibliográfico desta instituição, o que ele fez com certa relutância, em várias etapas. Também solicitei a diversos consulados estrangeiros a doação de livros e fui atendido pelos governos francês e italiano. Assim que começaram a chegar as primeiras listas do Sílvio Machado passei à aquisição, em massa, de livros e revistas, pelo processo de consulta de preços. Neste afã intensivo foram constatados alguns senões de pouca importância, vomo a inexplicável compra de um Accounting-index que dava o endereço de contabilistas americanos em atividade nos Estados Unidos e que doei à biblioteca da Faculdade de Economia, um tratado sobre cortumes que certamente foi encaminhado à Escola de Agronomia, um livro de poesias que não sei que fim levou, a repetição, em alguns casos, da compra de um mesmo livro feito por diversos autores, não sei se foi falha na listagem das compras ou esperteza de algum livreiro. Seja como for, esses senões não invalidaram a aquisição em massa porque se conseguiu, em pouco tempo, talvez um ano, tornar a biblioteca do Instituto de Matemática uma das melhores do País, possivelmente comparável na época à do IMPA.

Pena que com o fim da COSUPI e a redução permanente de verbas este processo foi sustado e lamentavelmente alguns diretores do IM chegaram mesmo a suspender a compra de revistas, algumas delas muito boas, principalmente os números antigos. Diga-se de passagem que a sobrevivência do Instituto, nesta fase, se deveu a sobras das verbas dadas anteriormente pela COSUPI que, por parcimônia, a Reitoria não gastou.

Passemos, agora a um assunto que me foi muito caro - o mestrado em Matemática: Certa vez, fiz uma indagação a Ford Foundation sobre a possibilidade de uma ajuda financeira na contratação de professores, sobretudo americanos. Obtive, como resposta, que antes deveria pensar num plano de instalação de cursos de pós-graduação em Matemática, vinculados aos de graduação da Universidade. Lamento, com tristeza, não ter percebido nesta proposta, a oportunidade implícita do mestrado e de ter achado que o assunto era de alçada da Faculdade de Filosofia de modo que não tomei nenhuma providência, encerrando a questão.

Em outubro de 1970, o velho IM foi assimilado pelo Instituto de Matemática, criado pela portaria nº 896 da Reitoria da Universidade, com novas atribuições e características, constituído de dois departamentos: o de Matemática Pura e Aplicada e o de Estatística.

A cogitação de criar um mestrado em Matemática só veio a ocorrer a partir de 1971 quando o Prof. Ernesto Preussler, diretor do Instituto, designa uma comissão, chefiada pelo Prof. Tietböhl, da qual, juntamente com o Prof. Clóvis Vilanova, fiz parte, tendo por objeto a redação de um projeto.

Este projeto que seguiu as instruções regulamentares dos cursos de pós-graduação da Reitoria, depois de encaminhado ao Diretor, foi submetido à apreciação do Colegiado do Departamento de Matemática Pura e Aplicada que o reformulou profundamente ao ponto de ferir frontalmente algumas das disposições estabelecidas para a pós-graduação. Uma delas, por exemplo, a exigência de dissertação do aluno, no fim do curso, foi mudada por um exame final perante banca examinadora. Como não podia deixar de acontecer, a Pró-Reitora de Pós-Graduação devolveu ao Instituto o processo para que fossem eliminadas as partes que contrariavam as normas estabelecidas, perdendo-se, deste modo, um tempo precioso, pois, tudo voltou à estaca zero.

Nova comissão, com outros professores, voltou a estudar o assunto. Desta vez não sei explicar direito o que se passou. Apenas me lembro que de um modo geral todos pareciam, na sua maioria, concordar com a criação do mestrado, um ou outro professor claramente contra. Mas a coisa emperrava quando se cogitava do andamento do processo. Eu tinha a impressão de que havia um propósito oculto em dificultar esse andamento que muitas vezes se manifestava em propostas contraditórias ou objeções à viabilidade do funcionamento do mestrado. Certa ocasião, alguém me disse que não haveria nenhum problema se o corpo docente do mestrado fosse constituído pelos bons professores da graduação. Desta vez evitei de me envolver com a inútil polêmica de quem devia ou não devia ser do mestrado. Limitei-me a observar que se no mestrado não figurassem, em bom número, nomes de professores com mestrado e doutorado, obtidos em instituições de mérito reconhecido o Conselho Federal deEducação não o credenciaria e sendo assim melhor seria engavetar o processo. Parecia-me, também que estes pequenos acontecimentos provocavam muita indecisão no diretor Prof. Preussler, tanto que esta questão ficou em banho-maria até o fim do seu mandato.

As coisas mudaram de rumo quando o Prof. Gerhard Jacob assume a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e o Prof. Japir do Carmo se torna diretor do IM, os quais, juntamente com Prof. Lindolfo Carvalho Dias, diretor do IMPA, prometem dar todo o apoio à instalação do mestrado, tomando as primeiras medidas que se faziam imediatamente necessárias. O Prof. Japir, por exemplo, ao tomar conhecimento da existência de um projeto de mestrado, não mediu esforços para encaminhá-lo, o mais depressa possível à Reitoria, depois de localizá-lo desmembrado e esquecido numa gavera e de ter nomeado o Prof. Luiz Severo Panta para refazê-lo, adaptá-lo às exigências regulamentares e completá-lo no que fosse preciso, enfim um processo bem feito. Enquanto isso, o Prof. Gerhard Jacob obtinha do Reitor autorização para contratar o Prof. Marcos Sebastiani, que trabalhava em Paris com o Prof. R. Thom, na área de Geometria Algébrica, e o Prof. Miguel Ferrero, especialista em Álgebra, superando alguns entraves burocráticos. Por outro lado, o Prof. Lindolfo se comprometia a indicar professores do corpo docente do IMPA para colaborar no ensino do curso de mestrado, se preciso fosse.

Não me lembro de como as coisas se passaram daí em diante, nem das peripécias que enfrentou o mestrado para ser aprovado. Julgo que a atuação do Prof. Japir e a preciosa colaboração do Prof. Gerhard permitem-me dizer que estes dois professores deviam ser reconhecidos os fundadores do mestrado de Matemática, na Universidade do Rio Grande do Sul. No mais, algum esclarecimento, quem pode dar é o Prof. Panta.

Este depoimento, que abrange o período de 1944 a 1980, mais ou menos, não relata, por algum motivo especial meu, fatos ou desavenças pitorescos que ocorreram. Afirmações sobre a inutilidade de trazerem-se professores de fora, porque já dispunhamos de uma boa biblioteca, onde todos podiam especializar-se sozinhos, ou sobre a inconveniência de enviarem-se professores nossos para fora porque, na volta, não mais se adaptariam ao regime de ensino universitário e criariam problemas, dificuldades e conflitos, principalmente para as direções das escolas, foram feitas com muita insistência e convicção, talvez com algum fundamento. Há também um estória di vertidíssima, do enterro de um gato, cujos detalhes vou omitir. Lançado do alto de um prédio vizinho, na rua Venâncio Aires, o gato caiu no pátio do Instituto, e como o faxineiro tinha saído, pediu-se a um trabalhador humilde que o enterrasse junto ao portão de entrada. Por causa disso tive que assinar uma ordem de pagamento de ressarcimento de despesas pela inumação de um gato.

Espero, em outra oportunidade, relatar os tempos trabalhosos e felizes em que lecionei Geometria Analítica na Escola de Engenharia de Florianópolis e orientei os cursos de Matemática da Faculdade de Filosofia dessa mesma cidade, na Universidade Federal de Santa Catarina.

Pode-se reconhecer, neste retrospecto que acabo de fazer, que os níveis de ensino e pesquisa atuais, na Matemática são, de modo perceptível, muito superiores aos que existiam no País, nos velhos tempos anteriores à criação das Faculdades de Filosofia e que, paulatinamente e positivamente, foram sendo melhorados, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, com advento dos institutos de pesquisa, em vários pontos do País, distiguindo-se o IMPA que exerceu maior influência sobre os demais, apesar das dificuldades e desacertos vencidos, nesse desenvolvimento.

Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1989.
Antônio Rodrigues


[Nota do Editor]: O professor Antônio Rodrigues foi o segundo Diretor do Instituto de Matemática, de 1960 a 1963.